Já faz três anos. Meu primeiro aparelho de mp3 era supostamente foda. Era mp4, aliás, mas eu acho ridículos esses acréscimos. Uma vez eu vi um aparelho que dizia ser mp10: décima função era uma caneta. Ora, se fosse assim, eu teria um mp12: meu canivete. A décima segunda função é chaveiro. Enfim, a mídia especializada levava a fama do meu mp4 às alturas. Não deu um mês e puf! Nunca mais ligou. Não, não foi nenhum erro de manuseio. Eu tenho uma maldição.
O meu segundo aparelho, também de mp4, foi roubado junto com minha carteira por um moleque na rua. Eles botam a mão no seu bolso e você só percebe quando eles já largaram o chinelo e correm como o vento. O terceiro eu catei do meu pai. Era um aparelho velhinho com poquíssima capacidade, e deve ser por isso que foi poupado da maldição. Mas eu caí no erro de trocar o Caixinha (apelidei-o assim porque ele tem o formato de uma caixinha de fósforos) por um que pudesse carregar mais de um álbum.
O quarto e o quinto são do mesmo modelo. É, um tinha um defeito - a entrada de fones de ouvido era horrorosa, portanto todos eles ficavam mexendo no interior do aparelho em mau contato - e o outro, que obtive ao trocá-lo, nem ligava. Resolvi ficar quietinho na minha com o velho Caixinha. Mas o destino não queria me deixar fugir da batalha. Eu tinha que perder, sempre.
Meu celular pifou. Já estava na hora de trocar mesmo, então eu aproveitei e peguei um daqueles que fazem café e lavam roupa. Ah, e tocam música. Meu novo aparelho celular aceita cartões microSD, onde eu poderia colocar a mídia que quisesse e ouvir à vontade. Poderia, se não fosse amaldiçoado: foi só conectar o leitor de cartão na entrada USB do computador que veio o defeito. Como estragar meu celular novo seria sacanagem demais, os forças do além atacaram o outro lado. Meu computador reconheceu o dispositivo, mas não conseguia acessá-lo. Mas eu não ia desistir, não agora que estava tão próximo. Peguei imediatamente o cabo do celular para ligá-lo direto ao computador. Novamente, o computador o reconheceu mas não pôde acessar. Eu tentei inclusive por comandos de texto e nada. Pela primeira vez eu percebi que estava amaldiçoado.
"Deve ser a entrada USB!", pensei, otimista, e tratei de ligar o cabo na entrada onde estava ligado e funcionando perfeitamente meu mouse. Nada. Leitor de cartão, nada. Liguei o mouse de novo e ele continuava funcionando. Só podia ser sacanagem. Aí eu me lembrei que meu computador tem um leitor embutido de cartões SD grandes, e que bastava colocar o microSD dentro de um adaptador para que ele fosse lido dessa entrada. "Ah tá, vai nessa, você acha mesmo que vai funcionar?", disse meu lado pessimista. "Ah, aliás, eu sou seu lado pessimista. Prazer.", voltou a voz. Era a primeira vez que ela falava, e estava certa. O computador reconheceu o cartão, mas não foi possível acessar os dados. Cheguei à conclusão de que minha máquina tinha um defeito absurdo que a impedia de acessar qualquer dispositivo externo de armazenamento que não fosse CD ou DVD. E foi aí que eu desisti da batalha pela segunda vez.
"Ei, Gabriel, me empresta aquele teu mp4 antigo, agora que você tem um melhor?"
"Pra ele explodir nas suas mãos? Hahahaha!"
Gabriel é aquele tipo de amigo que adora a sua desgraça. É estranho, mas é um tipo de amigo que todo mundo deve ter. E o Gabriel tinha razão, por um lado. Eu já havia perdido quatro aparelhos de música e uma parte da minha alma, que deu lugar ao lado pessimista. Eu ganhara mais uma voz chata na cabeça e ainda não podia ouvir música no ônibus. Eu não podia entrar nessa luta de novo. Mas eu entrei.
Lembrei-dos CDs e DVDs, que ainda podiam ser gravados pelo meu computador. Gravando alguns DVDs com arquivos de música, eu poderia copiar tudo para o computador de meu pai e de lá tranferir para o celular. Leitor de microSD, cabo do celular, eu poderia tentar tudo de novo.
O leitor queimou assim que foi inserido.
A instalação do programa do telefone executou uma operação ilegal, o que quer que isso queira dizer, e teve que ser fechada. Não enviei o relatório à microsoft, porque sei que o mesmo erro não vai ocorrer com mais ninguém.
No ônibus, eu tiro os fones. Estou cansado de ouvir repetidamente as duas músicas que cabem no Caixinha. E ali, apoiado na barra próxima à porta traseira do veículo, eu observo as pessoas. O menino tímido que flerta com a menina tímida através do reflexo da janela; a senhora de minissaia que acha que está arrasando; o cara com fones que está literalmente dançando no meio do ônibus de olhos fechados; a moça que tem medo de mim; o homem no Mussolini, o banco do fundo, de quem ela realmente devia ter medo; o sujeito que acorda de repente e pergunta "ei, ei, este ônibus não é o 500, não?", e não, não é o 500. E eu chego à conclusão de que não pode ser à toa que os sejamos eu e o Caixinha os únicos sobreviventes dessa guerra. Talvez esse seja o nosso dever, documentar o que acontece no ônibus que é tão importante que ninguém mais percebe. Eu não posso ser sempre distraído pela música. Eu não quero. Eu sou um cronista.