Tony Flow me criou

Hoje, na fila do Restaurante Universitário, falávamos de gosto musical quando um colega soltou: "Eu não tenho esse negócio de ídolo."

Eu tenho. E não tive opção. Até 2002, eu dizia que não me ligava muito em música. "Amigo CD" (um amigo secreto que faziam na escola, onde o presente era obrigatoriamente um CD)? Eu pedia sempre aleatoriamente, ou deixava a critério do presentador. De qualquer forma, eu ouviria um dia e nunca mais. Foi quando By The Way mudou minha vida. Um música, pela primeira vez, era algo que não precisava ser diferente. Algo que por si só era completo, totalmente agradável de se contemplar. Além disso, eu me amarrava na dancinha do taxista. Os Red Hot Chili Peppers me ensinaram a ouvir.

Comprei imediatamente o álbum. E não houve canção alguma que não me agradasse. No mesmo ano, saiu o videoclipe de The Zephyr Song, que me ensinou que eu não preciso usar drogas.

Throw Away Your Television não me deixou dúvidas: eu seria um baixista. Logo comprei meu contrabaixo que de longe é preto, de perto é roxo e no sol é marrom, assim como o velho álbum Californication e o novo álbum Greatest Hits, que consolidaram a banda como hors-concours para sempre no meu conceito.

Na época eu já sabia tudo de música pela internet. Mas não ouvi absolutamente nada dos álbuns mais antigos. Aguardei pacientemente até o lançamento de Stadium Arcadium, que superou qualquer expectativa, e ouvi as mesmas músicas por mais alguns anos. Quando a banda decidiu se separar por tempo indeterminado, eu soquei algumas paredes até encontrar os três discos mais antigos em um sebo e sossegar. Conhecer as canções velhas era como acompanhar um novo lançamento, e eu me vi como um raro fã que continuava a reconhecer a banda mesmo em tempos de recesso. Ao longo do tempo eu havia desenvolvido uma técnica: ouvir apenas o que eu tenho em disco.

Semana passada adquiri Blood Sugar Sex Magik, considerado pela maioria o melhor de todos os álbuns dos Peppers. Funciona muito bem a minha tática para permanecer sempre interessadíssimo na banda, sem jamais enjoar. E caramba. Que disco bom. E fica melhor ainda ouvido depois de tantos anos redescobrindo um conjunto aos poucos e fora de ordem cronológica. Tendo uma organização diferente no meu conhecimento, a banda é como se fosse outra. Não são apenas os Red Hot Chili Peppers. É o que são para mim os Red Hot Chili Peppers. Eu não tenho ídolos. Eu tenho mestres. Os Peppers me criaram.

A máquina

Existem vários tipos de orgasmo fora o sexual. São prazeres tão diferentes mas quase igualmente satisfatórios. Um exemplo fácil é o orgasmo gastronômico, que é ainda mais difícil de se obter várias vezes com a mesma comida. Aquele mais delicioso filé ao molho madeira, acompanhado de arroz piamontese, bacon e a melhor cerveja da região; a sobremesa mais cara, logo após um longo rodízio de churrasco, que vale cada centavo; o primeiro capuccino com chocolate, doce como todos deveriam ser. O orgasmo gastronômico se aproxima do sexual em um fator importante: pode denunciar sua sexualidade dependendo do que o causa. Cuidado com o petit gateau. Eu poderia ficar enumerando orgasmos psicológicos aqui, como o saudoso, o bucólico, o artístico ou o secreto, mas vou pular para o importante. O orgasmo cultural.

Voltei recentemente de uma viagem a Salvador e estou com dificuldades para organizar os pensamentos. Não só porque eu estava conhecendo um lugar que às vezes parece outro país, ou porque escutei todas as conversas de gringos que acham que ninguém os entende, ou porque andei de táxi o tempo todo, e táxi é igual a ônibus, só que sem os passageiros e com um motorista que compensa a falta deles. Não foi isso que fez meus neurônios ejacularem. Foi o fato de que eu não tive tempo para anotar nada.

Eu vi todas as casas em que a Ivete Sangalo mora. Volta e meia um taxista dizia "mora nesse prédio aí, a Ivete", e nenhum prédio se repetiu. Aparentemente ela tem uma casa de campo e uma de praia. E outra de praia. E uma de centro, e uma perto da padaria, e outra que é pertinho da farmácia. E, juntando informações de diferentes motoristas, uma que é vizinha de Gal Costa. As reuniões de condomínio devem ser demais.

Eu conheci uma empresa chamada "Criativa" que tinha como slogan "famosa pela criatividade", e logo depois também uma funerária de mesmo nome. Funerária Criativa. Não pergunte.

Notei que em Salvador os baianos não são tão baianos. Nada de "oxente", "meu rei", "painho" ou aquele sotaque geral que é o cão. O que só deixa dois lugares que eu conheço onde os baianos falam de maneira irritante: Teixeira de Freitas (BA) e Vila Velha (ES). Eles devem fazer de propósito.

Além dos pontos turísticos normais, eu conheci o barbeiro do meu pai, a praia do sexo, a única farmácia, as nuvens desenhadas.

E eu vi a máquina.

- Você pode pegar a máquina ali para mim, por favor? - disse a turista gaúcha. E o baiano lhe trouxe a máquina sem pestanejar.

Eu pensava que só aqui no Espírito Santo chamassem câmeras fotográficas de "a máquina". Pensei que só eu tivesse que me irritar com isso. Quando escuto "a máquina", imagino logo um policial matador feito o Riggs de Máquina Mortífera, ou uma metralhadora gigante sei lá por quê. Não uma câmera digital. Ou uma calculadora, ou uma lavadora/secadora de roupas, que são também conhecidas como "a máquina". Quando me pedem a máquina, eu sinceramente não sei o que fazer. É como se uma consciência coletiva soubesse sempre a qual aparelho se referem, uma consciência da qual não faço parte. Até onde eu sei, todo mundo pode estar pedindo uma máquina de datilografia.

--------//--------

Já faz um tempo que não se fala em mais nada além do Twitter. E eu achando a maior bobagem. Quer dizer, parece ótimo para transmissão de notícias, mas daí a cada usuário da internet ficar informando que vai tomar um banho, comer lasanha ou dormir, com qual pijama, em qual quarto, risadinha no final, já é outra história. Corta aqui, já volto a este ponto.

Dia desses eu estava olhando para todos os rascunhos do meu blog. Várias idéias que eu tive nos últimos três anos, idéias que eu achei que dariam ótimas crônicas, mas acabaram não indo para a frente. Eu adoraria utilizá-las, e poderia até publicá-las como estão, pouco desenvolvidas, mas isso só as destacaria negativamente. Foi aí que me lembrei do passarinho azul.

As minhas idéias diárias que são eliminadas podem não ser lá muito brilhantes, mas creio que sejam melhores que "vou escovar os dentes". Você pode vê-las clicando nas maiúsculas entre parêteses (CACA DIÁRIA NO TWITTER), mas encare a página como uma pequena extensão disto aqui.

--------//--------

Agora vou escovar os dentes.

Projeto de cinéfilo

Toda vez que vou à locadora, eu reviro a caixa de "à venda". Tem umas pechinchas tremendas lá. Estou com essa mania agora: comprando DVD o tempo todo.

Deve fazer uns dois meses que comprei a caixa da trilogia do Indiana Jones, que é cara, junto com um monte de barganhas (no final das contas, você soma os preços de cada um e divide, aí parece que foi tudo barato, dá uma paz... A próxima é a do Rocky), e comecei a ver um por um, aos poucos. Ao contrário do que alguns pensam, relembrar os grandes filmes do passado é uma experiência incrível. Meu pai diz que é perda de tempo, mas assiste a uns quatro programas diários de mesa redonda de futebol. Deve ser incrível para ele.

Da primeira vez que vi Os Caçadores da Arca Perdida e suas continuações, eu confundia Indiana Jones com Agatha Christie - para mim, Morte no Nilo era o filme mais chato do Indy. Eu não conseguia entender porque haviam colocado aquele francês bigodudo no lugar do arqueólogo de chicote. Estava na cara que aquele sujeito não agüentava cinco minutos de armadilhas egípcias.

Hoje, quase vinte anos depois, eu me pergunto coisas um pouco mais inteligentes ao rever a série. Além de "O que diabos foi aquele segundo filme?", por exemplo, não posso deixar de questionar como cenas como o clássico rosto derretendo, a cabeça explodindo, o cara que arranca corações com as mãos e o hálito de Deus não deixaram sua marca na minha memória. Até há pouco tempo atrás, eu deixava de aproveitar qualquer filme que tivesse cenas "fortes" de nojo-violência, porém agora descobri: quando era pequeno, eu não estava nem aí. Sangue, decapitações, tripas e esmagamentos, nada me abalaria. Mas eu morria de medo de Xuxa Contra Baixo Astral. Vergonha na cara: estou agora vendo todos os filmes que a violência não me deixou ver nos últimos anos.

E dizem que a violência nos filmes e jogos influencia negativamente a formação de caráter das crianças. Renato e Indiana Jones estão aí para provar o contrário. E tragam Tarantino!

--------//--------

Se for fazer alguma citação deste texto, escolha "Renato e Indiana Jones estão aí para provar o contrário", sem incluir o contexto. Que dupla!

--------//--------

Um agradecimento especial à Bianca. Feliz dia das crianças.

Um pouco de "q" sem "u"

O ômnibus oje tava lotadaum e eu fiuqei em pé apesar do joei estar doenod pacas. Um assento foi liberaod e eu deichei a mossa se sentar primero. Idioat.

O ônibuses oge tava lotadaon e eu fiqei em pé apesar do jueio estar doendo pacas. Um ascento foi liberado e eu deixei a mouça se sentar primeiroi. Idiota.

O ômnibuses oej taav lotadaõ e eu phi'k em pé apesar do juei estar doenod pacases. Um axcento foi liberaod e eu deixei a mô saci sentare pmirerioi. q

Não, não estou me rendendo a nenhum tiop, digo, tipo de internetês para usar no blog. Mas não posso deixar de admitir o fascínio que a liberdade de escrita na rede exerce sobre mim. O que eu comecei a conhecer no final da década de 90, com "vc", "fds", e o mais engraçado de todos, "tc", entre outros, era uma linguagem ágil para nossos dedos lentos. Eu me recusava a escrever errado, mas, digitando com os dois indicadores, entendia perfeitamente o porquê da moda ter pegado. Começava o internetês e, até então, estávamos eu cá e ele lá.

Não foi até 2005, acho, que tive meu primeiro contato com os derivados do internetês. Coisas absurdas como o miguxês, o oOooOOozês e o tiopês simplesmente não conseguiam me convencer. O que havia começado como uma forma de comunicação mais rápida havia se tornado justamente o oposto. Como uma receita médica, que hoje é feita em garranchos propositais cuidadosamente desenhados, a linguagem na internet estava ficando uma confusão vergonhosa.

O onibuxxx oxe tava lotadaum e eu fikei em peh apexxar du joeliu estar doendu pacaxxx. Um axxxxxentu foi liberado e eu deixxxxei a moxxa xi xxentar primero. Idiotaa. O miguxês, fruto de alguma mente incrivelmente maldoxxxxa, desperta no interlocutor imediata e obrigatoriamente uma de duas reações: um misto de frustração e fúria que cresce lenta, porém continuamente; ou uma vontade incontrolável de fazer biquinho. Ambas terrivelmente incômodas, o que me leva a questionar como diabos isso pode ter se espalhado senão por uma conspiração.

o Onibus hOje tava lotadaOn e eO fiquei em pé apesar dO jOelhO estar dOendO pacas. Um assentO fOi liberadO e eu deixei a mOça se sentar primerO. IdiOta. O oOooOOozês foi a língua para a qual foi mais difícil traduzir a frase do primeiro parágrafo. Preciso dizer mais? Pergunto-me se queriam que imaginássemos uma pronúncia diferenciada. Eu não consigo não imaginar, e não consigo não rir.

O o^niubs hoej taav lotadaõ e eu fiuqei em peh apezar do joehlo estar doenod pacas. Um asenot foi liberaod e eu deichei a mossa se senatr priemrioi. Idioat. O tiopês, à primeira vista, me pareceu o novo internetês. Uma linguagem relativamente compreensível, fruto de erros de uma digitação rápida sem rvisões. Algumas letrinhas trocadas praticamente não alteram a velocidade com a qual interpretamos uma palavra, logo, tomar menos cuidado com o que sai antes de apertar enter é um modo de agilizar ainda mais a comunicação. Mas os erros de ortografia além da ordem das letras pediam maiores explicações. Diferente dos oOooOOos e xxxxxxs, esses erros vinham nos mais variados formatos e pretendiam ter a mesma pronúncia que seus paralelos ortograficamente corretos. O miguxês e o oOooOOozês me divertiam, e só isso já era preocupante. Mas o tiopês era diferente. Ele não so me divertia, ele me fascinava.

Dois s poderiam viram um só, ou um cedilha, ou, dependendo do caso, um c, um sc, um xc. M e n podiam de misturar, e a quantidade de fonemas que poderiam substituir o til era impressionante. No inglês, a liberdade era ainda maior. Um só letra poderia se combinar com tantas outras fazendo sons tão distintos que não havia limites para a criatividade. Foi no ano passado que eu percebi que eu também já estava escrevendo errado de propósito. Meio escondido, meio tímido, ousando um pouco na ordem das últimas letras. Um pouco de q sem u. Um pouco de n com p. Em pouco tempo eu desenvolvia um jeito de escrever que já nem era tiopês. Era o meu jeito. Escrever errado era tão delicioso, tornava tão mais engraçadas conversas do dia-a-dia, que fez este cabeça-dura ter uma das mudanças mais drásticas de opinião na vida. Amo a gramática e continuo furioso com a incapacidade alheia de colocar as coisas no papel como ditam as regras. Mas na informalidade da internet, por que não deixar a linguagem ser arte? Com um toque aqui e ali o texto ganha uma personalidade irresistível.

-------- // --------

prontofalei

Google

Um dia desses eu liguei para o meu provedor de internet pela enésima vez na semana. Eu teclo 2, para novas assinaturas, eles atendem tão rápido que nem cai no Beethoven.

- Bom dia, senhor! Está interessado em...

- Caiu.

- Ah, você de novo.

- Seguinte, já desliguei todos os cabos do modem e esperei e ligue de novo, as quatro luzes verdes estão acesas e a laranja pisca sem parar, tudo nos trinques.

- Olha, já te falei que esse seu roteador deve estar com problemas.

- Nada, liguei o cabo direto no computador, aparece "conectado" e aquele indicador de velocidade que é uma mentira do caramba e tal, mas não abre site nenhum.

- Um momento então que vou transferir você pra um de nossos atendentes.

- Qualé Andressa, não faz isso comigo não. Esses caras não atendem. Aliás, você já é um de seus atendentes e...

Beethoven. Acho que eu odeio Beethoven. Desliguei o telefone e voltei à frente do computador. Continuava fora do ar: o Google não abria, o Caca Diária não abria, o Orkut não abria, o Youtube não abria, o meu e-mail não abria. Pensei um pouco. "Não pode ser..." Tentei pensar em uma página que não fosse filiada ao Google. Trinta segundos se passaram e nada veio à cabeça, então procurei um site nos meus favoritos. E abriu.

Eu peguei um momento raro de queda de serviço do Google que me deixou preocupado. Esse troço domina a internet. Neste momento, por exemplo, meu navegador se encontra com onze abas abertas. 3 blogs, 3 páginas do orkut, 2 vídeos no youtube, meu e-mail, uma tentativa de pesquisa e um fórum. Tirando o fórum, é tudo do Google, e isso se puder tirar: acabei de verificar que ele está cheio de links do nosso amigo.

É, caro leitor... o seu traseiro pertence ao Google.

Hoje eu ia fazer uma atualização das grandes, falando de coisa importantes que deixei passar nos últimos meses, como a reforma ortográfica, a morte do Michael Jackson, ortopedia, fisioterapia e traumatologia, e ônibus. Não foi possível. Desde ontem que minhas pesquisas no Google não retornam nenhum resultado, e eu me sinto tremendamente impotente. Google mudou nossas vidas de um jeito que não é tão fácil de perceber antes que se perca. Não poder ter informação em 0,0084 segundo mais assustador do que parece.

--------//--------

Meu amigo Gabriel não usa a barra de endereço do navegador. Ele digita o nome do site no Google. Hahaha.

--------//--------

OK, posso escrever um pouco sem Google. Pelo menos tentar. Lá vai.

Guarda-chuvas em vôos freqüentes. Faz parte do meu protesto. Eu vou continuar escrevendo do jeito antigo até o limite estipulado, só por birra. Eu não sei se vou conseguir viver sem a opção "Português(BR)" nos programas de computador.

***

Sinto-me injustiçado. Admirava tanto o Michael Jackson, mas de repente parece que todo mundo gosta dele mais do que eu. Bom, não posso deixar de comentar sobre a morte do ídolo. Eu nunca consegui ligar o Michael negro e o branco como sendo uma pessoa só. Presto então uma homenagem dupla. Ao primeiro, por influenciar gerações com sua música e dança. Ao segundo, pelas piadas.

***

Depois de três meses, meu joelho está finalmente se recuperando (é, acho que não escrevi sobre isso, mas... manquei bastante). Com uma folga na faculdade, posso comparecer à fisioterapia todos os dias da semana para curar de vez o meu "hipersolc mec extense condrepaelc mld". É o que diz o diagnóstico escrito pelo meu médico, e ninguém lá na clínica faz a menor idéia do que signifique. Dedos cruzados.

***

Criei no menu uma classificação de textos por categoria, por enquanto com apenas uma: "ônibus". É como uma despedida. Estou dirigindo o carro da minha mãe com freqüência crescente. Mas não se preocupem, o carro está cheio de problemas e o trânsito na região é péssimo. Ou seja, podem esperar pela nova categoria , "carro", em breve.

Maldição

Já faz três anos. Meu primeiro aparelho de mp3 era supostamente foda. Era mp4, aliás, mas eu acho ridículos esses acréscimos. Uma vez eu vi um aparelho que dizia ser mp10: décima função era uma caneta. Ora, se fosse assim, eu teria um mp12: meu canivete. A décima segunda função é chaveiro. Enfim, a mídia especializada levava a fama do meu mp4 às alturas. Não deu um mês e puf! Nunca mais ligou. Não, não foi nenhum erro de manuseio. Eu tenho uma maldição.

O meu segundo aparelho, também de mp4, foi roubado junto com minha carteira por um moleque na rua. Eles botam a mão no seu bolso e você só percebe quando eles já largaram o chinelo e correm como o vento. O terceiro eu catei do meu pai. Era um aparelho velhinho com poquíssima capacidade, e deve ser por isso que foi poupado da maldição. Mas eu caí no erro de trocar o Caixinha (apelidei-o assim porque ele tem o formato de uma caixinha de fósforos) por um que pudesse carregar mais de um álbum.

O quarto e o quinto são do mesmo modelo. É, um tinha um defeito - a entrada de fones de ouvido era horrorosa, portanto todos eles ficavam mexendo no interior do aparelho em mau contato - e o outro, que obtive ao trocá-lo, nem ligava. Resolvi ficar quietinho na minha com o velho Caixinha. Mas o destino não queria me deixar fugir da batalha. Eu tinha que perder, sempre.

Meu celular pifou. Já estava na hora de trocar mesmo, então eu aproveitei e peguei um daqueles que fazem café e lavam roupa. Ah, e tocam música. Meu novo aparelho celular aceita cartões microSD, onde eu poderia colocar a mídia que quisesse e ouvir à vontade. Poderia, se não fosse amaldiçoado: foi só conectar o leitor de cartão na entrada USB do computador que veio o defeito. Como estragar meu celular novo seria sacanagem demais, os forças do além atacaram o outro lado. Meu computador reconheceu o dispositivo, mas não conseguia acessá-lo. Mas eu não ia desistir, não agora que estava tão próximo. Peguei imediatamente o cabo do celular para ligá-lo direto ao computador. Novamente, o computador o reconheceu mas não pôde acessar. Eu tentei inclusive por comandos de texto e nada. Pela primeira vez eu percebi que estava amaldiçoado.

"Deve ser a entrada USB!", pensei, otimista, e tratei de ligar o cabo na entrada onde estava ligado e funcionando perfeitamente meu mouse. Nada. Leitor de cartão, nada. Liguei o mouse de novo e ele continuava funcionando. Só podia ser sacanagem. Aí eu me lembrei que meu computador tem um leitor embutido de cartões SD grandes, e que bastava colocar o microSD dentro de um adaptador para que ele fosse lido dessa entrada. "Ah tá, vai nessa, você acha mesmo que vai funcionar?", disse meu lado pessimista. "Ah, aliás, eu sou seu lado pessimista. Prazer.", voltou a voz. Era a primeira vez que ela falava, e estava certa. O computador reconheceu o cartão, mas não foi possível acessar os dados. Cheguei à conclusão de que minha máquina tinha um defeito absurdo que a impedia de acessar qualquer dispositivo externo de armazenamento que não fosse CD ou DVD. E foi aí que eu desisti da batalha pela segunda vez.

"Ei, Gabriel, me empresta aquele teu mp4 antigo, agora que você tem um melhor?"
"Pra ele explodir nas suas mãos? Hahahaha!"

Gabriel é aquele tipo de amigo que adora a sua desgraça. É estranho, mas é um tipo de amigo que todo mundo deve ter. E o Gabriel tinha razão, por um lado. Eu já havia perdido quatro aparelhos de música e uma parte da minha alma, que deu lugar ao lado pessimista. Eu ganhara mais uma voz chata na cabeça e ainda não podia ouvir música no ônibus. Eu não podia entrar nessa luta de novo. Mas eu entrei.

Lembrei-dos CDs e DVDs, que ainda podiam ser gravados pelo meu computador. Gravando alguns DVDs com arquivos de música, eu poderia copiar tudo para o computador de meu pai e de lá tranferir para o celular. Leitor de microSD, cabo do celular, eu poderia tentar tudo de novo.

O leitor queimou assim que foi inserido.

A instalação do programa do telefone executou uma operação ilegal, o que quer que isso queira dizer, e teve que ser fechada. Não enviei o relatório à microsoft, porque sei que o mesmo erro não vai ocorrer com mais ninguém.

No ônibus, eu tiro os fones. Estou cansado de ouvir repetidamente as duas músicas que cabem no Caixinha. E ali, apoiado na barra próxima à porta traseira do veículo, eu observo as pessoas. O menino tímido que flerta com a menina tímida através do reflexo da janela; a senhora de minissaia que acha que está arrasando; o cara com fones que está literalmente dançando no meio do ônibus de olhos fechados; a moça que tem medo de mim; o homem no Mussolini, o banco do fundo, de quem ela realmente devia ter medo; o sujeito que acorda de repente e pergunta "ei, ei, este ônibus não é o 500, não?", e não, não é o 500. E eu chego à conclusão de que não pode ser à toa que os sejamos eu e o Caixinha os únicos sobreviventes dessa guerra. Talvez esse seja o nosso dever, documentar o que acontece no ônibus que é tão importante que ninguém mais percebe. Eu não posso ser sempre distraído pela música. Eu não quero. Eu sou um cronista.

Asterisco

Estive pensando... É melhor eu começar a tomar cuidado com o que escrevo. Opiniões políticas, religiosas, político-religiosas; traumas de infância; traumas de adolescência; reflexões de ônibus; conversas com Deus; conversas com Beus; cor e formato de roupas de baixo. Tenho soltado muitas verdades sobre mim, e isso é perigoso.

Meus colegas da faculdade lêem este blog. Meus antigos vizinhos também o lêem, e temo que os novos vizinhos juntem-se a eles no futuro. Todas as garotas bonitas da cidade estão lendo o meu blog, e eu fico vermelhinho. Minha família lê! A parte materna próxima pode não ser muito numerosa, mas só de pensar no que pensa de mim o clã Miranda eu tenho calafrios. Meu pai é o caçula de catorze irmãos, e, creio, o único que não é muito chegado à igreja. E agora ele está querendo se tornar religioso, o que aumenta exponencialmente as minhas chances de atingir o posto de ovelha negra.

Preciso me policiar, ou trapacear. Por sorte, lembrei-me de uma das mais poderosas armas da língua escrita: o asterisco.

"Tratamento 100% confiável!*"

"Compre e concorra a uma casa!*"

Em algum lugar você encontrará o segundo asterisco. Geralmente atrás do anúncio, de cabeça para baixo, em letras tamanho 2, naquela tinta invisível que só é enxergada sob luz negra. Coberto com uma fita. E lida a observação, você descobre que o tratamento só é 100% confiável em 20% dos casos, e que talvez não valha muito a pena concorrer a uma casa* de cachorro.
*De plástico.

O que foi? Nenhuma regra nos impede de colocar mais um asterisco na observação, oras. É, vocês estão ferrados. A língua falada não tem asterisco.

"Pode deixar, mãe, volto antes das onze! Asterisco."

"Juro por tudo o que há de mais sagrado. Asterisco."

"Não me segura! Não me segura! Asterisco."

"Hahahahahahaha! Asterisco."

Não dá muito certo.

A partir de agora, vou colocar sempre um asterisco no final, afinal, nunca se sabe quem está lendo. O asterisco deixa a dúvida no ar. Mas cá entre nós, com asterisco ou não, tudo o que você lê aqui é a mais pura verdade*.

--------//--------

Fiquei tanto tempo sem escrever que nem tenho mais certeza se são mesmo oito hífens de cada lado das barras. Acho que voltei. Abraços.